sexta-feira, 2 de agosto de 2019

NUNCA TE VI... SEMPRE TE AMEI, Helene Hanff



1

"Rua 95 Leste, 14
9 de fevereiro de 1952


BICHO-PREGUIÇA,

Eu posso ATÉ APODRECER em minha casa, antes que vocês me mandem alguma coisa para ler. Eu podia dar um pulo na brentano´s, e é isso que eu faria, caso estivesse em circulação o que desejo.

[...]

O que é que você faz o dia inteiro, fica sentado nos fundos da loja a ler? Por que não tenta vender um livro a alguém?


Srta. Hannf para você.
(sou helene só para meus AMIGOS)."





2

"11 de abril de 1959

[...] 

O santo homem, que me vendia todos os meus livros, morreu há uns poucos meses. E o Sr. Marks, que era o dono da loja, faleceu. Marks & Co., porém, continua no mesmo local. Se por acaso vocês passarem por Charing Cross Road, 84, beijem a livraria por mim. Devo-lhe tanto.

Helene."









Nunca te vi... sempre te amei / Helene Hanff. - Rio de Janeiro: Casa Maria Editorial, 1988.


O filme é melhor, porém o livro, o filme, as correspondências, tudo me é como cheiro de talco, que lembra tempos idos, que lembra lembrança. O título brasileiro prescinde qualquer dedicatória.



ÉDIPO REI, Sófocles

junho de 2019



1

"[...], até o dia fatal de cerrarmos os olhos
não devemos dizer que um mortal foi feliz de verdade
antes de ele cruzar as fronteiras da vida inconstante
sem jamais ter provado o sabor de qualquer sofrimento."
p. 122






Édipo Rei / Sófocles. - Rio de Janeiro: Zahar, 2018.




O PARAÍSO SÃO OS OUTROS, de Valter Hugo Mãe



1

"Ainda não sei nada. Leio livros para aprender. Estou sempre apressada. Sou muito mexida. Um dia quero uma coisa, no outro quero tudo. Sofro de um problema de sossego. Não sei o que é estar sossegada. Mais tarde corrijo."
p. 28


2

"Nunca se torna tarde. Tarde é a metade do meio dos dias. 
O amor é urgente. As pessoas ficam tão aflitinhas com o amor como quando querem fazer chichi."
p. 49


3

"Eu acho que as pessoas apaixonadas sentem saudades mesmo quando estão juntas, [...]"

p. 50

4

"Desenho para escrever.
Mostrar, deste modo, as minhas figuras toscas, muito falhas, é sobretudo mostrar uma companhia de toda a vida: a ansiedade de fazer algo surgir."

p. 58




O paraíso são os outros / Valter Hugo Mãe. - Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2018.

PETER PAN, de J. M. Barrie




1

"A sra. Darling ouviu falar de Peter pela primeira vez quando estava organizando as mentes de seus filhos. À noite, todas as boas mães esperam seus filhos irem dormir para remexer suas mentes e arrumar tudo para a manhã seguinte, recolocando nos locais certos os diversos itens que saíram do lugar ao longo do dia. Se você conseguisse ficar acordado (mas é claro que não consegue), ia ver sua mãe fazendo isso, e ia achar muito interessante observá-la. É igualzinho a arrumar gavetas. Você a veria de joelhos, imagino eu, olhando divertida para a parte do conteúdo, perguntando-se onde você arrumara aquilo, fazendo descobertas doces e outras nem tão doces, apertando as primeiras contra o rosto como se fossem tão lindas quanto um gatinho e escondendo as outras bem depressa num canto onde ninguém vai ver. Quando você acorda de manhã, as traquinagens e má-criações com as quais foi dormir foram dobradas até ficarem bem pequenas e guardadas no fim da pilha da sua mente; na parte de cima, bem arejados, estão espalhados seus pensamentos mais bonitos, prontinhos para você usar."
p. 17





Peter Pan / J. M. Barrie - Rio de Janeiro: Zahar, 2013.



Livro que li para ler depois.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

PEDRO PÁRAMO, de Juan Rulfo


1

"- ... Esse fulano de quem estou falando trabalhava como "amansador" na Media Luna; dizia que seu nome era Inocencio Osorio. Mas todos o conheciam pelo mau nome de busca-pé porque ele era muito leve e muito ágil para os saltos. Meu compadre Pedro dizia que ele era como se tivesse sido mandado fazer para amansar potrinhos; mas a verdade é que tinha outro ofício: o de "provocador". Era provocador de sonhos. Isso é o que ele era de verdade. E acabou enganando sua mãe do mesmo jeito que fazia com muitas."
p. 41







Pedro Páramo / Juan Rulfo. - São Paulo: Record, 2005.
ISBN: 85-01-06592-7  








Leitura emprestada, livro vai, mas muito fica.








janeiro de 2014

MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES, de Gabriel García Márquez



1

"Também a moral é uma questão de tempo, [...]"
p. 07

2

"Nunca fiz nada diferente de escrever, mas não tenho vocação nem virtude de narrador, ignoro por completo as leis da composição dramática, e se embarquei nessa missão é porque confio na luz do muito que li pela vida afora. Dito às claras e às secas, sou da raça sem méritos nem brilho, que não teria nada a legar aos seus sobreviventes se não fossem os fatos que me proponho a narrar do jeito que conseguir nesta memória do meu grande amor."
p. 11

3

"Nessa época ouvi dizer que o primeiro sintoma da velhice é quando a gente começa a se parecer com o próprio pai. [...] A verdade é que as primeiras mudanças são tão lentas que mal se notam, e a gente continua se vendo por dentro como sempre foi, mas de fora os outros reparam."
p. 13

4

"As tempestuosas despedidas de solteiro que me faziam no Bairro Chinês iam na contramão dos serões opressivos do Club Social. Contraste que me serviu para saber qual dos dois mundos era na realidade o meu, e cheguei a ter a ilusão de que os dois eram porém cada um na sua hora, pois de qualquer dos dois eu via o outro se afastar com os suspiros dilacerados com que se separam os barcos em alto-mar."
p. 43

5

"O mundo avança. Sim, respondi, avança, mas dando voltas ao redor do sol." 
p. 45


6

"[...], e senti na garganta o nó górdio de todos os amores que puderam ter sido e não foram."
p. 61


7

"Por que você me conheceu tão velho? Respondi com a verdade: A idade não é a que a gente tem, mas a que a gente sente."
p. 68


8

"Incrível: vendo-a e tocando-a em carne e osso, me parecia menos real que em minhas lembranças."
p. 71

9

"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza."
p. 74

10

" - Não se engane: os loucos mansos se antecipam ao porvir."
p. 76

11

"Antes de voltar para casa no dia seguinte escrevi no espelho com o batom: Minha menina, estamos sozinhos no mundo."
p. 80

12

"Havia achado, sempre, que morrer de amor não era outra coisa além de uma licença poética. Naquela tarde, de regresso para casa outra vez, sem o gato e sem ela, comprovei que não apenas era possível, mas que eu mesmo, velho e sem ninguém, estava morrendo de amor. E também percebi que era válida a verdade contrária: não trocaria por nada neste mundo as delícias do meu desassossego."
p. 95

13

"Ainda enredado nas teias de aranha da noite tive coragem de ir no dia seguinte à fábrica de camisas onde Rosa Cabarcas havia dito uma vez que a menina trabalhava e pedi ao proprietário que me mostrasse as instalações para servir de modelo para um projeto continenal das Nações Unidas. Era um libanês paquidérmico e taciturno, que nos abriu as portas de seu reino com a ilusão de ser um exemplo universal."
p. 99

14

"Lendo Os idos de março encontrei uma frase sinistra que o autor atribui a Júlio César: É impossível não acabar sendo do jeito do jeito que os outros acreditam que você é. Não pude comprovar sua verdadeira origem na própria obra de Júlio César nem nas obras de seus biógrafos, de Suetônio a Carcopino, mas valeu a pena conhecê-la."
p. 107

15


"É que estou ficando velho, disse a ela. Já ficamos, suspirou ela. Acontece que a gente não sente por dentro, mas de fora todo mundo vê."
p. 109

16


"Olhou-me nos olhos, mediu minha reação ao que acabava de me contar, e disse: Então, vá correndo procurar essa pobre criatura mesmo que seja verdade o que dizem os seus ciúmes, não importa, o que você viveu ninguém rouba. Mas, isso sim, sem romanticismos de avô. Acorde a menina, fode ela até pelas orelhas com essa pica de burro com que o diabo premiou você pela sua covardia e mesquinhez. De verdade, terminou ela com a alma: não vá morrer sem experimentar a maravilha de trepar com amor."
p. 111

17


"Em cima do tampo de vidro que cobria a escrivaninha tinha aberto um dos enormes livros de apontamentos do arquivo onde estava o registro das jóias de minha mãe. Uma relação exata, com datas e detalhes de que ela em pessoa tinha mandado mudar as pedras de duas gerações de belas e dignas Cargamantos, e havia vendido as legítimas naquela mesma loja. Isso tinha acontecido quando o pai do atual proprietário estava à frente da joalheria, e ele e eu na escola. Mas ele mesmo me tranqüilizou: aquelas pequenas artimanhas eram de uso corrente entre as grandes famílias em desgraça, para resolver urgências de dinheiro sem sacrificar a honra. Diante da realidade crua, preferi conservá-las como lembrança de outra Florina de Dios que jamais conheci."
p. 117




Memória de minhas putas tristes / Gabriel Gracía Márquez. - Rio de Janeiro: Record, 2005.
ISBN: 85-01-07265-6  












Rodapé:




"El amor es el estado en el cual, la mayoría de las veces, el hombre ve las cosas como no son. Aquí se encuentra en su cumbre la fuerza ilusoria, lo mismo que la fuerza endulzadora, transfiguradora. En el amor se soportan más cosas que en cualquier otra situación, se tolera todo."

(NIETZSCHE, Friedrich. El Anticristo. Alianza Editorial: Madrid, 2006.)







dezembro de 2013 




quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

DOM CASMURRO, de Machado de Assis



1

"[...] Não soltamos a mãos, nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam a meter-se uns pelos outros... Padre futuro, estava assim diante dela como de um altar, sendo uma das faces a Epístola e a outra o Evangelho. A bôca podia ser o cálix, os lábios a patena. Faltava dizer a missa nova, por um latim que ninguém aprende, e é a língua católica dos homens. Não me tenhas por sacrílego, leitora minha devota; a limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial no estilo. Estávamos ali com o céu entre nós. As mãos, unindo os nervos, faziam das duas criaturas uma só, mas uma só criatura seráfica. Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas, as palavras da bôca é que nem tentavam sair, tornavam ao coração caladas como vinham..."
p. 22

2

"Capitu quis lhe repetisse as respostas tôdas do agregado, as alterações do gesto e até a piruêta, que apenas lhe contara. Pediu o som das palavras. Era minuciosa e atenta; a narração e o diálogo, tudo parecia remoer consigo. Também se pode dizer que conferia, rotulava e pregava na memória a minha exposição. Esta imagem é porventura melhor que a outra, mas a ótima delas é nenhuma. Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. Se ainda o não disse, aí fica. Se disse, fica também. Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor, à força de repetição.

Era também mais curiosa. As curiosidades de Capitu dão para um capítulo. Eram de várias espécies, explicáveis e inexplicáveis, assim úteis como inúteis, umas graves, outras frívolas; gostava de saber de tudo."
p. 45

3

" - [...]. Deixe ver os olhos, Capitu.

Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera dêles, "olhos de cigana oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a côr e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados nêles, a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...


Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aquêles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que êles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá a idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma fôrça que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me."

p. 47-8

4

"[...], e foi assim que nos pacificamos. O bonito é que cada um de nós queria agora as culpas para si, e pedíamos recìprocamente [sic] perdão. Capitu alegava a insônia, a dor de cabeça, o abatimento do espírito, e finalmente "os seus calundus." Eu, que era muito chorão por êsse tempo, sentia os olhos molhados... Era amor puro, era efeito dos padecimentos, era a ternura da reconciliação."

p. 69

5

"Entre luz e fusco, tudo há de ser breve como êsse instante. [...] Oh! minha doce companheira da meninice, eu era puro, e puro fiquei, e puro entrei na aula de S. José, a buscar de aparência a investidura sacerdotal, e antes dela a vocação. Mas a vocação eras tu, a investidura eras tu." 

p. 73


6

"[...]; mas o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se."

p. 89

7

"Nem eu, nem tu, nem ela, nem qualquer outra pessoa desta história poderia responder mais, tão certo é que o destino, como todos os dramaturgos, não anunciam as peripécias nem o desfecho. Êles chegam a seu tempo, até que o pano cai, apagam-se as luzes, e os espectadores vão dormir. "
p. 102


8

"O destino não é só dramaturgo, é também o seu próprio contra-regra, isto é, designa a entrada dos personagens em cena, dá-lhes as cartas e outros objetos, e executa dentro os sinais correspondentes ao diálogo, uma trovada, um carro, um tiro."
p. 103

9

"Contando aquela crise do meu amor adolescente, sinto uma coisa que não sei se explico bem, e é que as dores daquela quadra, a tal ponto se espiritualizaram com o tempo, que chegaram a diluir-se no prazer. Não é claro isto, mas nem tudo é claro na vida ou nos livros. A verdade é que sinto um gôsto particular em referir tal aborrecimento, quando é certo que êle me lembra outros que não quisera lembrar por nada."
p. 106

10

"A minha alegria acordava a dêle, e o céu estava tão azul, e o ar tão claro, que a natureza parecia rir também conosco. São assim as boas horas dêste mundo."
p. 125





Dom Casmurro / Machado de Assis. - São Paulo: Catânia Editôra, s/d.















Não sei muito o que dizer do que senti do livro a não ser que quanto mais adiantadas as páginas, mais me sentia agoniada e angustiada pelo sentimento que o sentimento de Bentinho me fazia sentir. Se Capitu traiu Bentinho? Não saberia também dizer, mas sendo o livro permeado pela narração imparcial dos fatos de acordo com a visão e com os sentimentos angustiados de Bentinho, poderia facilmente dizer que sim, pode que a dona dos olhos de ressaca o tenha traído. E diria isso com base nesse embrulho no estômago que certas vezes sentimos - como algo não palpável remexendo lá dentro querendo sair, que é pouco provável, vá lá, mas possível que seja a intuição nos delatando o que os olhos não vêem - ou apenas os nossos olhos enganados pelo tanto ou pelo pouco que nos cega.














19 de dezembro de 2013